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Para onde o mundo vai

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Professores-bots e Harvard à distância: conheça a nova escola experimental

Shridhar Jayanthi

2022-03-20T19:04:00

22/03/2019 04h00

Crianças brincando com robôs

A escola contemporânea, a que a maioria de nós vivenciou, gira em torno de salas de aula, professores, lição de casa e exames para avaliar aprendizado. Esses sistemas se desenvolveram ao longo dos três últimos séculos e amadureceu com a massificação da educação pública após a revolução industrial.

Não é de se espantar, portanto, que livros didáticos, currículo organizado por disciplina e anos letivos, e professores presenciais para passar conteúdos tenham sido pensados a partir de paradigmas da era industrial: impressão, transporte e estruturas sociais organizadas.

Iniciativas recentes, porém, têm demonstrado a viabilidade de outros modelos, utilizando tecnologias modernas como smartphones, internet de banda larga e tecnologias de informação distribuída (clouds) para contornar os limites impostos pelos modelos mais tradicionais. 

Nestes ambientes pedagógicos virtuais ou experimentais, a inteligência artificial pode aumentar a eficácia do dever de casa, e plataformas digitais podem aumentar o alcance de professores, pesquisadores e educadores de altíssima qualidade. As iniciativas vão desde o ensino básico até o superior e têm sido utilizados para complementar, substituir ou, em alguns casos, desafiar a educação formal!

Tecnologia e empreendedorismo na educação infantil

O aprendizado de conceitos relacionados à tecnologia costuma ser melhor através da via experimental. Para expor crianças a esse tipo de experiência, a startup Nave à Vela introduz a ideia de trazer espaços de cultura maker –uma versão mais tecnológica da cultura faça-você-mesmo– para as escolas.

Para tal, a Nave à Vela busca integrar ao currículo tradicional disciplinas que encorajam alunos a desenvolver seus próprios projetos e a exercitar a solução independente de problemas. O conceito de usar tecnologia para expandir o horizonte de ensino está presente no uso de realidade virtual em sala de aula.

Já a Bytenack, uma startup ainda nova, quer ensinar crianças a programar fora da sala de aula. Para tal, a empresa desenvolveu um ambiente interativo com jogos e histórias em quadrinhos que mesclam entretenimento e ensino.

Este ambiente também tem um tutor digital, que usa inteligência artificial para aprender as dificuldades dos alunos e gerar desafios adequados. A Bytenack não detalha o nível desta inteligência, mas o conceito é intrigante.

Tutores utilizam IA também populares em educação juvenil e adulta. Dois exemplos são as empresas Carnegie Learning e Thinkster Math, que focam no ensino de matemática. Essas ferramentas possuem bots que avaliam lições de casa e desenham novos exercícios com base nas dificuldades encontradas.

Apesar de tutores bots não serem capazes de interagir com aluno de forma empática, essa deficiência é compensada pelo fato de os serviços de tutoria serem bem mais baratos que um professor particular.

As empresas que oferecem tutoria automática aparentam entender a limitação imposta pela ausência de professores presenciais. A Thinkster Math, que tem como público-alvo crianças e adolescentes, oferece videoaulas periódicas com um professor humano em seus pacotes. Já a Carnegie Learning foca no público universitário e vende suas aulas como um suplemento pra cursos.

Desenvolvendo carreiras

Ainda no tema "bots," uma ferramenta interessante é o Que Curso?, um site que se quer ser um consultor vocacional online. Esse site tenta resolver um problema bastante comum entre jovens. A ferramenta é gratuita (mas é importante lembrar que em muitas ferramentas gratuitas, o produto pode ser a sua privacidade!).

Plataformas digitais também são notáveis, não só por permitir bots mas também pela sua capacidade de difusão de informação providenciada por pessoas extremamente hábeis. Essas plataformas permitem, portanto, que um professor extremamente qualificado e hábil possa oferecer serviços valorosos para qualquer pessoa com acesso à internet.

É essa a ideia de plataformas como o cursinho eletrônico Kuadro, que oferece preparação para vestibulares e para o ENEM. Esse tipo de serviço permite que pessoas que moram longe de grandes centros, tenham acesso a materiais e suporte sem precisar se mudar.

Dos grandes centros educacionais para o mundo

Outras plataformas com professores bem qualificados e disponíveis para qualquer aluno com acesso a internet são as já consagradas Coursera e EdX. Qualquer um pode aprender com professores do MIT, Harvard, Oxford e Unicamp, por exemplo. Esse tipo de ferramenta também permite o aprendizado intercultural.

Como um exemplo, eu acompanhei as aulas de direito consuetudinário (common law) oferecidas pela University of London, britânica, e pela Yale, americana, e fiquei intrigado pela forma como sistemas legais tão semelhantes apresentam diferenças culturais.

A flexibilidade geográfica providenciada pela educação está sendo explorada pelo Minerva Institute. Essa faculdade estrutura seu programa em torno de cursos oferecidos online. Mas, ao contrário de instituições tradicionais de ensino à distância, o programa da universidade exige que os alunos morem em lugares diferentes do mundo, com o intuito de entrar em contato com outras culturas.

Sobre os autores

Daniel Schultz é cientista, professor de microbiologia e membro do núcleo de ciências computacionais em Dartmouth (EUA). Estuda a dinâmica dos processos celulares, com foco na evolução de bactérias resistentes a antibióticos. É formado em engenharia pelo ITA, doutor em química pela Universidade da Califórnia San Diego e pós-doutorado em biologia sistêmica em Harvard. Possui trabalhos de alto impacto publicados em várias áreas, da física teórica à biologia experimental, e busca integrar essas várias áreas do conhecimento para desvendar os detalhes de como funciona a vida ao nível microscópico.

Monica Matsumoto é cientista e professora de Engenharia Biomédica no ITA. Curiosa, ela tem interesse em áreas multidisciplinares e procura conectar pesquisadores em diferentes campos do conhecimento. Monica é formada em engenharia pelo ITA e doutora em ciências pela USP, e trabalhou em diferentes instituições como InCor/HCFMUSP, UPenn e EyeNetra.

Shridhar Jayanthi é Agente de Patentes com registro no escritório de patentes norte-americano (USPTO) e tem doutorado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Michigan (EUA) e diploma de Engenheiro de Computação pelo ITA. Atualmente, ele trabalha com empresas de alta tecnologia para facilitar obtenção de patentes e, nas (poucas) horas vagas, é um estudante de problemas na intersecção entre direito, tecnologia e sociedade. Antes disso, Shridhar teve uma vida acadêmica com passagens pela Rice, MIT, Michigan, Pennsylvania e no InCor/USP, e trabalhou com pesquisa em áreas diversas da matemática, computação e biologia sintética.

Sobre o blog

Novidades da ciência e tecnologia, trazidas por brasileiros espalhados pelo mundo fazendo pesquisa de ponta. Um espaço para discussões sobre os rumos que as novas descobertas e inovações tecnológicas podem trazer para a sociedade.