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Sequência trágica: como a ciência explica a megaexplosão em Beirute

Daniel Schultz

14/08/2020 04h00

Homem observa os escombros da explosão no porto de Beirute (Issam Abdallah/ Reuters)

Nessa última semana assistimos horrorizados à grande explosão do porto de Beirute. Os incontáveis vídeos do incidente, filmado por todos os ângulos, invariavelmente começam com os habitantes expressando preocupação quanto a um incêndio já de grandes proporções em um dos armazéns do porto. Depois o que se vê é uma das maiores explosões não-nucleares da história varrer a cidade, com onda de choque e forma de cogumelo.

O evento chacoalhou os prédios no Chipre e em Israel, a centenas de quilômetros dali. No lugar do armazém, ficou uma grande cratera. Não foi a maior explosão acidental da história, posto que pertence à explosão que destruiu Halifax, no Canadá, em 1917. Mas há quase 80 anos não se via nada igual. Num lugar turbulento como Beirute, chegou-se a suspeitar de terrorismo. Mas no final foram o descaso e a negligência os responsáveis pelo maior ataque à população do Líbano.

Em 2013, o navio Rhosus saiu da Geórgia em direção a Moçambique carregando 2.750 toneladas de nitrato de amônio para serem utilizados por uma mineradora. O navio parou em Beirute, aparentemente por problemas mecânicos, e depois de ser reprovado numa inspeção foi impedido de seguir viagem. A tripulação, depois de passar um ano presa no navio, foi repatriada. O dono do navio foi à falência, e depois que a mineradora perdeu o interesse pela carga, abandonou o navio.

Em 2014, o governo libanês acabou confiscando a carga, e o navio abandonado permaneceu no porto até afundar alguns anos depois. Assim, as quase 3 mil toneladas de nitrato de amônio permaneceram empilhadas no armazém número 12 pelos seis anos seguintes, enquanto os funcionários alfandegários, buscando uma solução, esbarravam na burocracia libanesa.

O nitrato de amônio é produzido em grandes quantidades no mundo todo para ser utilizado como fertilizante na agricultura e pode até mesmo ser encontrado como um mineral no deserto do Atacama. É também misturado com combustíveis para ser utilizado como explosivo na mineração. Porém, o nitrato de amônio não se inflama sozinho. Uma das dificuldades em se conseguir grandes explosões é garantir a disponibilidade de oxigênio o suficiente para a queima total do combustível, e é aí que o nitrato de amônio ajuda.

Quando misturado a combustíveis, o nitrato de amônio fornece oxigênio numa concentração muito maior que o ar à nossa volta, facilitando a combustão. Porém, em temperaturas mais altas, o nitrato de amônio pode se decompor violentamente, liberando gases e causando uma explosão. Foi isso que causou a explosão de Tianjin em 2015.

Para se armazenar o nitrato de amônio com segurança, várias medidas precisam ser tomadas. A primeira é afastar o material da áreas populadas e usar um lugar bem ventilado e com um sistema de chuveiros anti-incêndio.

O acúmulo de grandes quantidades do material permite que a combustão se complete durante a explosão antes que o material combustível saia voando pelos ares. Assim, é necessário manter uma distância segura entre os sacos de armazenamento e impedir que a umidade aglutine os grãos de nitrato de amônio num bloco. Isso além de obviamente não armazenar conjuntamente com outros materiais que possam servir como combustível.

Infelizmente, nada disso foi feito em Beirute, e as toneladas de nitrato de amônio permaneceram empilhadas no coração da cidade. Ainda assim é difícil de se desencadear uma explosão. É preciso um incêndio com temperaturas altas e combustível suficiente para sustentá-lo.

Não se sabe ao certo como se iniciou o incêndio em Beirute, suspeita-se de um carregamento de fogos de artifício, mas durou um bom tempo, até que o nitrato de amônio começasse a se decompor.

No começo é possível ver a onda de choque, aquela fina esfera esbranquiçada se movendo do foco da explosão e destruindo tudo em seu caminho.

A onda de choque se movimenta mais rápido que a velocidade do som, e o branco que se vê é o vapor do ar se condensando brevemente devido à baixa pressão gerada logo atrás da frente da onda. Depois veio a grande nuvem de um gás avermelhado, que tomou o céu de todo o Líbano. Esses são óxidos de nitrogênio, resultantes da decomposição do nitrato de amônio, e são tóxicos e poluentes.

O desastre no Líbano foi catastrófico por motivos além da explosão. O impacto numa área central da cidade incluiu a destruição de hospitais importantes, que já andavam sobrecarregados pelo coronavírus, impedindo que os feridos fossem prontamente atendidos.

O Líbano já vinha numa crise econômica que gerava descontentamento na população. Agora, com a destruição do porto, juntamente com o maior silo de grãos do país, os impactos econômicos serão ainda mais severos.

Essa é uma crise que veio em cima de outras crises –econômicas, políticas e de saúde. O governo já renunciou. Que o desastre ao menos catalise as mudanças que os libaneses tanto esperam.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre os autores

Daniel Schultz é cientista, professor de microbiologia e membro do núcleo de ciências computacionais em Dartmouth (EUA). Estuda a dinâmica dos processos celulares, com foco na evolução de bactérias resistentes a antibióticos. É formado em engenharia pelo ITA, doutor em química pela Universidade da Califórnia San Diego e pós-doutorado em biologia sistêmica em Harvard. Possui trabalhos de alto impacto publicados em várias áreas, da física teórica à biologia experimental, e busca integrar essas várias áreas do conhecimento para desvendar os detalhes de como funciona a vida ao nível microscópico.

Monica Matsumoto é cientista e professora de Engenharia Biomédica no ITA. Curiosa, ela tem interesse em áreas multidisciplinares e procura conectar pesquisadores em diferentes campos do conhecimento. Monica é formada em engenharia pelo ITA e doutora em ciências pela USP, e trabalhou em diferentes instituições como InCor/HCFMUSP, UPenn e EyeNetra.

Shridhar Jayanthi é Agente de Patentes com registro no escritório de patentes norte-americano (USPTO) e tem doutorado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Michigan (EUA) e diploma de Engenheiro de Computação pelo ITA. Atualmente, ele trabalha com empresas de alta tecnologia para facilitar obtenção de patentes e, nas (poucas) horas vagas, é um estudante de problemas na intersecção entre direito, tecnologia e sociedade. Antes disso, Shridhar teve uma vida acadêmica com passagens pela Rice, MIT, Michigan, Pennsylvania e no InCor/USP, e trabalhou com pesquisa em áreas diversas da matemática, computação e biologia sintética.

Sobre o blog

Novidades da ciência e tecnologia, trazidas por brasileiros espalhados pelo mundo fazendo pesquisa de ponta. Um espaço para discussões sobre os rumos que as novas descobertas e inovações tecnológicas podem trazer para a sociedade.