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"Pense nos outros": tecnologia e pandemia mudam o comportamento dos médicos

Shridhar Jayanthi

07/06/2020 04h00

Zach Vessels/ Unsplash

O homem disse que tinha de ir embora – antes queria me ensinar uma coisa muito importante:

– Você quer conhecer o segredo de ser um menino feliz para o resto de sua vida?

– Quero – respondi.

O segredo se resume em três palavras, que ele pronunciou com intensidade, mãos nos meus ombros e olhos nos meus olhos:

– Pense nos outros.

"O menino no espelho" – Fernando Sabino

Por Paulo Schor*

Uma das categorias profissionais mais convencionais e de mudança comportamental mais lenta se move a passos de gigante: os médicos.

Durante décadas as questões éticas conviveram com o mercado e a demanda da população na área da saúde. Associações de defesa de classe, de pacientes, de proprietários de clínicas etc. não se entenderam pois os interesses em comum nem sempre foram explicitados.

Como compatibilizar o lucro a partir de internações e exames, com o acesso universal a serviços de saúde? Ou montar estruturas de atendimento antes de haver demanda efetiva e retorno financeiro privado?

A tecnologia (e aspectos econômicos, como a inflação médica) vinha promovendo a mudança, e tínhamos a esperança da antecipação de novos comportamentos, que beneficiariam os pacientes, como a medicina baseada em valor, a promoção do bem-estar e o empoderamento dos pacientes pela tecnologia frugal.

O vírus deu um impulso em tudo. Um mal maior e um tempo muito menor se colocaram à frente de detalhes que antes tomavam a cena. E a atenuação do sofrimento (e em última instância a luta contra a morte) retomou seu lugar central no cuidado com o próximo.

Uma das discussões que mais rapidamente se resolveu foi a da telemedicina, que entre vais e vens, tinha sido engavetada para estudos mais aprofundados. Agora, ela ressurge com inúmeras faces, desde a certificação digital de profissionais, que hoje assinam receitas de medicamentos controlados e enviam ao celular dos pacientes, até plataformas institucionais gratuitas que gravam e compartilham informações com sigilo e qualidade.

Hoje treinamos acadêmicos e residentes para lidar com telas. Como interpretar a fala dos pacientes, emoção que traz ao médico experiente inúmeras informações da história clínica? Resgatamos a história! Rica o suficiente para permitir um encaminhamento e hipóteses robustas na maioria das vezes.

O antigo hábito de pedir inúmeros exames complementares e depois aprofundar os diagnósticos é questionado. Retornamos a mais pura origem da prática médica, a escuta. Revalorizamos o raciocínio clínico, investigativo, crítico e científico.

Participei de várias experiências de atendimento a distância, desde o acompanhamento de autoexames (como o EyeNetra), passando por laudos de teleoftalmologia, a orientação de refração –exame de óculos– remoto. Recentemente integrei a força-tarefa que iniciou consultas de orientação a pacientes pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia, e hoje utilizo plataformas institucionais para meus pacientes.

O custo direto dessas tecnologias é baixo se comparado ao custo fixo envolvido em atendimentos presenciais. Há o custo de treinamento, as redes de dados limitadas nas pontas, a instabilidade dos sistemas e o entendimento do funcionamento das plataformas, nem sempre, mas cada vez mais amigáveis.

Testemunho –e já publicamos artigos sobre– a efetividade das práticas mediadas por tecnologia. Os pacientes que são atingidos e têm sua angústia minorada traduzem qualitativamente esses dados.

Empresas investem em mais ferramentas que analisam expressões durante encontros virtuais, permitindo aos mais novos a interpretação mais rápida e precisa dos sentimentos alheios. Algoritmos procuram padrões em imagens e evitam prescrições de receitas com erros grosseiros, que nós, humanos, estamos sujeitos a cometer. A utilização da máquina, como interface com o humano, hoje é essencial e quem sabe salvadora.

Enxergo aqui uma oportunidade imensa de resgate de uma joia nacional, voltada à população que mais precisa: o SUS.

Essa enorme inovação em políticas públicas originária do Brasil chamada Sistema Único de Saúde nunca pode ser implementada na sua totalidade, também por inexistência de recursos suficientes. Apesar dos preceitos detalhados, a formação médica era (e ainda é) direcionada para a medicina reparadora, e não preventiva. Os egressos ainda procuram plantões de especialidades e se agrupam em clínicas de especialidades, tendo o sonho de "só atender paciente particular" um dia.

O modelo de remuneração de médicos e hospitais a partir do pagamento de clientes para planos de saúde, que por um lado lucram mais quanto menor for a dita sinistralidade (procura por atendimento) e por outro mais ganham quanto mais internações e procedimentos houver, não fecha.

No contexto atual da pandemia, com detalhes abafados por fatos catastróficos, podemos pensar em passos mais largos. Vemos a óbvia ação e necessidade estatal na redução de desigualdades, e o SUS traz isso no conceito central de equidade. Somamos a isso ferramentas centradas no usuário, direcionadas para essa necessidade, que remetem ao conceito de integralidade, e concluímos com um modelo de sustentabilidade presente na universalização do cuidado.

Todos os requisitos estão hoje colocados na mesa e vigorosamente validados. Profissionais experientes e em formação agora podem trabalhar de inúmeros locais em tempos variados, aumentando exponencialmente a produtividade e acessibilidade.

Temos como, podemos e devemos pensar nos outros!

* Paulo Schor é médico e professor livre-docente de oftalmologia na Escola Paulista de Medicina e Einstein; e diretor de inovação tecnológica e social da Unifesp.

Sobre os autores

Daniel Schultz é cientista, professor de microbiologia e membro do núcleo de ciências computacionais em Dartmouth (EUA). Estuda a dinâmica dos processos celulares, com foco na evolução de bactérias resistentes a antibióticos. É formado em engenharia pelo ITA, doutor em química pela Universidade da Califórnia San Diego e pós-doutorado em biologia sistêmica em Harvard. Possui trabalhos de alto impacto publicados em várias áreas, da física teórica à biologia experimental, e busca integrar essas várias áreas do conhecimento para desvendar os detalhes de como funciona a vida ao nível microscópico.

Monica Matsumoto é cientista e professora de Engenharia Biomédica no ITA. Curiosa, ela tem interesse em áreas multidisciplinares e procura conectar pesquisadores em diferentes campos do conhecimento. Monica é formada em engenharia pelo ITA e doutora em ciências pela USP, e trabalhou em diferentes instituições como InCor/HCFMUSP, UPenn e EyeNetra.

Shridhar Jayanthi é Agente de Patentes com registro no escritório de patentes norte-americano (USPTO) e tem doutorado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Michigan (EUA) e diploma de Engenheiro de Computação pelo ITA. Atualmente, ele trabalha com empresas de alta tecnologia para facilitar obtenção de patentes e, nas (poucas) horas vagas, é um estudante de problemas na intersecção entre direito, tecnologia e sociedade. Antes disso, Shridhar teve uma vida acadêmica com passagens pela Rice, MIT, Michigan, Pennsylvania e no InCor/USP, e trabalhou com pesquisa em áreas diversas da matemática, computação e biologia sintética.

Sobre o blog

Novidades da ciência e tecnologia, trazidas por brasileiros espalhados pelo mundo fazendo pesquisa de ponta. Um espaço para discussões sobre os rumos que as novas descobertas e inovações tecnológicas podem trazer para a sociedade.