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O que a covid-19 destrói no nosso corpo? É um dos desafios do tratamento

Daniel Schultz

17/05/2020 04h00

Freepik

No começo entendia-se que a covid-19 se tratava de uma doença respiratória tradicional. Os pacientes tossiam, tinham dificuldades para respirar e apresentavam baixos níveis de oxigenação no sangue. Mas aos poucos os médicos foram notando algumas situações incomuns.

Pacientes com níveis de oxigenação baixíssimos geralmente estão em pânico, sentindo que estão se afogando, enquanto que os pacientes com coronavírus se apresentavam relativamente tranquilos.

Alguns pacientes assintomáticos deterioravam rapidamente e morriam em casa. As autópsias, ao invés de mostrarem apenas as lesões alveolares nos pulmões, geralmente associadas às pneumonias, mostravam que os pulmões estavam na realidade coalhados de pequenos coágulos sanguíneos.

Pacientes asmáticos, que geralmente são muito mais susceptíveis às doenças pulmonares, surpreendentemente não apareciam entre os grupos de risco. Em vez disso, os grupos de risco eram em sua maioria constituídos de pacientes de doenças cardiovasculares.

Ainda não se sabe ao certo quais são os mecanismos dessa nova doença, mas aos poucos as peças do quebra-cabeça vão se encaixando.

Muito mais que uma gripezinha

Aos poucos vamos aprendendo que o novo coronavírus causa problemas muito além dos pulmões. Quase metade dos pacientes hospitalizados por covid-19 apresenta proteínas ou sangue na urina, indicando lesões nos rins possivelmente causadas diretamente pelo vírus.

Grande parte desses pacientes acaba necessitando de diálise, ao ponto de várias máquinas de diálise acabarem inutilizadas ao serem entupidas pelos coágulos sanguíneos dos pacientes de covid-19.

Aliás, 38% dos pacientes de covid-19 em UTI apresentavam algum tipo de anormalidade na coagulação do sangue; 40% dos pacientes críticos sofrem de arritmia cardíaca, vários desses com lesões no coração. Outros 10% sofrem problemas neurológicos como convulsões ou derrames.

Já sabemos também que, tentando combater o vírus, nosso sistema imunológico pode desencadear uma resposta fortíssima, a chamada "tempestade de citocinas". Essa resposta pode causar grande parte dos danos que vemos nas outras partes do organismo, mas eles parecem extensos demais para serem atribuídos somente à "tempestade". Afinal, muitas outras células ao redor do nosso corpo apresentam os mesmos receptores que o vírus utiliza para adentrar nas células pulmonares.

Células da parede do intestino, por exemplo, expressam esse receptor em grandes quantidades, e a superfície do intestino equivale a uma quadra de tênis. É muito espaço para o vírus se multiplicar. Um dos sintomas da doença é justamente a diarreia. E de fato encontramos partículas do vírus além dos pulmões, apesar de isso ser difícil de se determinar com precisão.

Devastação pelo corpo

O coronavírus certamente adentra no nosso corpo pelas vias aéreas e inicialmente se estabelece nos tecidos que revestem o nariz e a garganta. Lá encontra células ricas no receptor ACE2, que o vírus usa para infectar as células. Aliás, danos a células nervosas no nariz causados pelo vírus parecem provocar a perda do olfato, talvez o sintoma mais curioso do covid-19.

Caso nosso corpo não consiga controlar a infecção, o vírus prossegue pelas vias aéreas até encontrar outro grupo de células ricas em ACE2: as que revestem os alvéolos do pulmão e intermedeiam a absorção de oxigênio pelo nosso sangue. É aí que o cenário começa a se complicar.

A inflamação decorrente enche os alvéolos de pus, dificultando a absorção de oxigênio, e põe o sistema imunológico em polvorosa. A partir daí o caminho do vírus fica mais nebuloso. Não se sabe ao certo se é mais o vírus em si ou a resposta imunológica desproporcional que ele desencadeia (ou ambos) que continua a devastação a partir dos pulmões. Assim, não se sabe se tentar conter a resposta imunológica é uma boa estratégia, ao risco de atrapalhar a luta contra o vírus.

Apesar de os pulmões serem indubitavelmente a arena principal, várias outras partes do corpo humano com células ricas em ACE2 parecem realmente serem diretamente afetadas pelo vírus. Entre essas estão os intestinos, os rins, o coração e também neurônios no cérebro. Outros estudos associaram lesões nos olhos e no fígado ao coronavírus. Se bem que quando o corpo humano começa a falhar generalizadamente é difícil distinguir as causas desses problemas.

Coágulos no sangue

Mas além dos pulmões, o maior problema causado pela covid-19 é no sistema circulatório. Lesões cardíacas resultando em infartos são relativamente comuns, assim como derrames e embolias causadas por coágulos sanguíneos.

Ao que tudo indica, o coronavírus pode alterar a regulação da pressão do sangue, causando a constrição dos vasos sanguíneos. Isso explica porque diabéticos, obesos e hipertensos são particularmente afetados pela doença. 20% dos pacientes mais críticos desenvolvem os coágulos, que vão se consolidando como um dos aspectos mais temidos da infecção.

Esses coágulos, amontoados gelatinosos de células e proteínas, são a maneira do corpo estancar sangramentos. A presença deles em pacientes de covid-19 traz algumas surpresas. Anticoagulantes não parecem surtir efeito, e os pacientes hospitalizados com coágulos geralmente têm altos níveis de um fragmento proteico que se forma quando os coágulos se dissolvem. Grande parte dos coágulos parece ser muito menor que o normal, entupindo até mesmo os vasos capilares. Isso, junto com a constrição dos vasos, pode inclusive interferir com a absorção de oxigênio no pulmão, aumentando o problema causado pela infecção nos alvéolos.

Uma teoria que vem ganhando força é que o endotélio que reveste os vasos sanguíneos, rico em receptores ACE2, é atacado diretamente pelo vírus, liberando partículas que desencadeiam a formação de coágulos. No final das contas, inflamações e formação de coágulos são processos inter-relacionados, e ambos são desencadeados pelo covid-19.

Grupo de risco

Entender os mecanismos da doença é essencial para se estabelecer tratamentos eficientes. Tentamos controlar a inflamação? Ministramos anticoagulantes? São perguntas debatidas pela comunidade médica, ainda sem respostas definitivas.

Além disso, nos permite entender quais os grupos de risco que devem ser protegidos ao final da quarentena. Além de diabetes, hipertensão, doenças cardíacas e obesidade, até mesmo tipos sanguíneos e fatores genéticos parecem impactar a severidade da doença.

O covid-19 é uma doença muito diferente de qualquer outra já vista, com detalhes ao mesmo tempo fascinantes e aterrorizantes. De qualquer maneira, é cada vez mais claro que o pânico está longe de ser injustificado. Mesmo para pessoas jovens e saudáveis, se expor desnecessariamente ao vírus é uma péssima ideia.

Sobre os autores

Daniel Schultz é cientista, professor de microbiologia e membro do núcleo de ciências computacionais em Dartmouth (EUA). Estuda a dinâmica dos processos celulares, com foco na evolução de bactérias resistentes a antibióticos. É formado em engenharia pelo ITA, doutor em química pela Universidade da Califórnia San Diego e pós-doutorado em biologia sistêmica em Harvard. Possui trabalhos de alto impacto publicados em várias áreas, da física teórica à biologia experimental, e busca integrar essas várias áreas do conhecimento para desvendar os detalhes de como funciona a vida ao nível microscópico.

Monica Matsumoto é cientista e professora de Engenharia Biomédica no ITA. Curiosa, ela tem interesse em áreas multidisciplinares e procura conectar pesquisadores em diferentes campos do conhecimento. Monica é formada em engenharia pelo ITA e doutora em ciências pela USP, e trabalhou em diferentes instituições como InCor/HCFMUSP, UPenn e EyeNetra.

Shridhar Jayanthi é Agente de Patentes com registro no escritório de patentes norte-americano (USPTO) e tem doutorado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Michigan (EUA) e diploma de Engenheiro de Computação pelo ITA. Atualmente, ele trabalha com empresas de alta tecnologia para facilitar obtenção de patentes e, nas (poucas) horas vagas, é um estudante de problemas na intersecção entre direito, tecnologia e sociedade. Antes disso, Shridhar teve uma vida acadêmica com passagens pela Rice, MIT, Michigan, Pennsylvania e no InCor/USP, e trabalhou com pesquisa em áreas diversas da matemática, computação e biologia sintética.

Sobre o blog

Novidades da ciência e tecnologia, trazidas por brasileiros espalhados pelo mundo fazendo pesquisa de ponta. Um espaço para discussões sobre os rumos que as novas descobertas e inovações tecnológicas podem trazer para a sociedade.