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Telemedicina ajuda na quarentena, mas internet e privacidade são desafios

Mônica Matsumoto

06/04/2020 04h00

Mohamed Hassan/ Pixabay

Estamos há pouco mais de uma semana de quarentena no estado de São Paulo, desde o dia 24 de março. Nesse mesmo período, foi liberado pelo Ministério da Saúde o atendimento médico da população pela telemedicina, e poucos dias antes, o Conselho Federal de Medicina (CFM) havia liberado algumas linhas de telemedicina também.

As recomendações atuais são reduzir ao máximo a circulação de pessoas e evitar aglomerações, só tendo serviços essenciais em funcionamento. Assim, a recomendação havia sido suspender atendimento ambulatorial, consultório e exames. Além da recomendação de adiar cirurgias eletivas, sendo apenas as de urgência e emergência a serem consideradas, ou cirurgias oncológicas necessárias. Essas medidas fazem todo o sentido: para disponibilizar o maior número de leitos possível para pacientes positivos de coronavírus e também de profissionais de saúde, além de não colocar pessoas em risco pois procedimentos médicos podem ter complicações que exijam internação ou UTI que estarão focadas em receber pacientes com coronavírus.

Com a telemedicina autorizada legalmente, surgem novas formas de atender os pacientes durante a crise. Tanto pacientes que apresentam sintomas do novo coronavírus quanto pacientes de todas as outras especialidades médicas.

Novas possibilidades

A portaria do Ministério da Saúde para telemedicina em tempos de coronavírus é ampla e permite ao médico exercer teletrabalho de:

  • Atendimento pré-clínico, 
  • Atendimento de suporte assistencial, 
  • Consulta, 
  • Monitoramento,  
  • Diagnóstico, 
  • Emitir atestados médicos e
  • Emitir receitas de remédios

Essas medidas viabilizam o atendimento de pacientes suspeitos ou positivos de coronavírus. 

No atendimento desses pacientes remotamente, a permanência em isolamento ajuda a evitar o contágio de outras pessoas, monitoramento de sinais como temperatura e orientação e encaminhamento podem ser feitos por prática remota. Somente aos pacientes mais graves é recomendada a permanência hospitalar.

Para outros pacientes – não suspeitos de coronavírus – é muito importante ter acesso ao médico primário ou especialista. As pessoas precisam de atendimento, pois infecções, dores, inflamações entre outros são achados recorrentes. Assim, a demanda por saúde não espera. Por outro lado, tomar uma condução para ir ao médico e esperar em consultório são exposições a serem evitadas nesse momento, e que podem gerar ansiedade. Outro ponto importante é que não sabemos por quanto tempo durará o isolamento. E muitas demandas médicas são melhor tratadas como prevenção do que tratadas em caráter de emergência. 

Pacientes com coronavírus geram mais demanda de emergência no momento. E muitos planos de saúde estão negando procedimentos que não sejam de urgência e emergência, deixando muitos profissionais de saúde em stand by. A opção de telemedicina pode aliviar a demanda de consultas presencias.

Tecnologia 

O "meio" como a telemedicina é operacionalizada me parece o maior desafio.

Em primeiro lugar, acesso à internet fixa ou móvel já faz parte de 80% da população, segundo o IBGE (2019). Elas são largamente acessíveis à população. Isso é um bom sinal de viabilidade da telemedicina. Apesar de o acesso ser amplo por parte da população brasileira, ele é desigual em forma. Apenas 40% dos domicílios tem internet ligada ao computador (com conexão mais rápida), e pessoas com rendimento domiciliar menor de apenas 13% – renda per capita inferior a US$ 5,50 PPC (Paridade de Poder de Compra). Grande parte da população tem acesso pelo smartphone.

Outro ponto extremamente importante, que faz parte da recomendação do CFM e do Ministério da Saúde refere-se a como preservar a privacidade do paciente, manter os dados digitais de laudo e histórico protegidos. Existem diversas formas de conectar online, mas muitas plataformas não são seguras, como se descobriu recentemente por exemplo sobre falhas de privacidade do Zoom. Outras plataformas de armazenamento de dados como o Dropbox padrão não aderem às normas de privacidade (HIPAA) diretamente. São "detalhes", e deve haver orientação aos médicos em como estar dentro dos critérios de segurança.

Telemedicina no Brasil e isolamento da população

Apesar de várias tentativas de regulamentar a telemedicina, ela ainda não foi aceita pelos conselhos médicos. A última tentativa foi de 2019 pelo CFM (leia sobre a resolução 2.227/18 e a comparação da resolução anterior 1.643/02 de 2002).  Mas ela foi logo revogada pelos conselhos regionais. Há vários pontos válidos de questionamento, especialmente quanto à ética de relacionamento médico-paciente e avaliação presencial. 

Um dos pontos que pode gerar resistência são os novos negócios que aparecerão com a ampliação da telemedicina, mas vale a discussão e negociação entre os conselhos de medicina e potenciais players no mercado. Não apenas do ponto de vista médico, mas também de pragmatismo e novas possibilidades. Haverá disrupção e parte parece ser benéfica à população, aos médicos e a novos negócios. 

Antes havia um consenso que a telemedicina poderia favorecer principalmente locais remotos, com teleconsultas, teleinterconsultas e telecirurgia, por exemplo. Existe uma desigual distribuição no país de médicos especialistas, que estão concentrados em cidades grandes. A pandemia expandiu o conceito do que é remoto, já que grande parte da população se encontra isolada e em quarentena. É uma mudança de paradigma, já que o isolamento é necessário.

Parece-me um bom momento para experimentar  e operacionalizar a telemedicina e aprender com erros e acertos das ferramentas disponíveis. A forma de atuar do médico também tem que se adaptar ao cenário diferente, principalmente em como estabelecer a relação médico-paciente. A situação do mundo mudou, e a resposta rápida nos coloca em posição melhor do que simplesmente não atender as demandas de saúde.

 

Sobre os autores

Daniel Schultz é cientista, professor de microbiologia e membro do núcleo de ciências computacionais em Dartmouth (EUA). Estuda a dinâmica dos processos celulares, com foco na evolução de bactérias resistentes a antibióticos. É formado em engenharia pelo ITA, doutor em química pela Universidade da Califórnia San Diego e pós-doutorado em biologia sistêmica em Harvard. Possui trabalhos de alto impacto publicados em várias áreas, da física teórica à biologia experimental, e busca integrar essas várias áreas do conhecimento para desvendar os detalhes de como funciona a vida ao nível microscópico.

Monica Matsumoto é cientista e professora de Engenharia Biomédica no ITA. Curiosa, ela tem interesse em áreas multidisciplinares e procura conectar pesquisadores em diferentes campos do conhecimento. Monica é formada em engenharia pelo ITA e doutora em ciências pela USP, e trabalhou em diferentes instituições como InCor/HCFMUSP, UPenn e EyeNetra.

Shridhar Jayanthi é Agente de Patentes com registro no escritório de patentes norte-americano (USPTO) e tem doutorado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Michigan (EUA) e diploma de Engenheiro de Computação pelo ITA. Atualmente, ele trabalha com empresas de alta tecnologia para facilitar obtenção de patentes e, nas (poucas) horas vagas, é um estudante de problemas na intersecção entre direito, tecnologia e sociedade. Antes disso, Shridhar teve uma vida acadêmica com passagens pela Rice, MIT, Michigan, Pennsylvania e no InCor/USP, e trabalhou com pesquisa em áreas diversas da matemática, computação e biologia sintética.

Sobre o blog

Novidades da ciência e tecnologia, trazidas por brasileiros espalhados pelo mundo fazendo pesquisa de ponta. Um espaço para discussões sobre os rumos que as novas descobertas e inovações tecnológicas podem trazer para a sociedade.