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O que morcego, ebola e o "olhar do vírus" nos ensinam sobre a nova epidemia

Daniel Schultz

31/01/2020 04h00

Reprodução

Mais uma vez um novo vírus mortal ameaça se espalhar pelo planeta. Já vimos esse filme antes. Cientistas mundo afora agora correm contra o tempo para entender melhor os mecanismos de transmissão do vírus e delinear a melhor maneira de lidar com a epidemia. É um trabalho perigoso. Me lembro bem do clima solene na Escola de Medicina de Harvard em 2014, quando foi publicado o artigo descrevendo o vírus ebola, que assolava a África Ocidental à época. O artigo tinha vários autores póstumos, colaboradores contaminados ao tratar pacientes durante a epidemia. Sobre o novo vírus e Wuhan, descrito num artigo recente, já se sabe que é um tipo diferente de coronavírus, um tanto distante do coronavírus do SARS de 2002, também na China. Mas ainda é cedo para prever a dimensão dessa nova epidemia.

Os números iniciais não são tão assustadores, mas vários fatores complicam a análise. A taxa de transmissão e a taxa de letalidade, reportada abaixo de 3%, são bem menores que as do SARS. Porém, ainda não se sabe o suficiente sobre o vírus para se obter prognósticos confiáveis, e os dados sobre a epidemia são incompletos. Por exemplo, ainda não se sabe o período de incubação do vírus, que pode estar entre 2 e 14 dias, portanto, não se sabe quantas pessoas podem estar infectadas. Além do mais, os números reportados podem estar abaixo do número real, já que há uma demora inicial de se reconhecer o perigo da epidemia e se montar a estrutura necessária para se coletar os dados.

No geral, os piores casos acontecem no começo de uma epidemia, e a mortalidade diminui conforme se põe em prática medidas de saúde pública e se reforça o tratamento da doença. Conforme o vírus se espalha e evolui para se adaptar ao corpo humano, a gravidade das infecções também tende a diminuir. Vale mais a pena para o vírus conviver com o paciente por mais tempo, aumentando suas chances de transmissão. Por outro lado, a facilidade de se transportar o vírus rapidamente ao redor do planeta, através do fluxo de passageiros em aviões, torna difícil a contenção das transmissões. Conforme se aprendeu com o ebola, uma vez que o vírus atinge centros urbanos despreparados, a epidemia pode sair do controle.

Assim se originam as epidemias, com grande densidades populacionais e proximidade com animais. Ao olhar do vírus, nossas células não são tão diferentes das dos animais. Portanto, não custa muito para algum vírus endêmico a alguma população animal descobrir todo um novo mercado inexplorado ao adquirir mutações que o permitam infectar células humanas. A partir daí, a tendência é o vírus evoluir para tentar a coexistência com seu novo hospedeiro através de ciclos sucessivos de infecções, o que é muito mais fácil de se obter em grandes populações. Aliás, por esse motivo, durante o descobrimento os europeus carregavam muito mais doenças endêmicas para transmitir aos nativos americanos do que o contrário.

Depois de sua última epidemia com o SARS, cientistas chineses se puseram a procurar qual seria a origem animal do vírus. Sabendo qual o reservatório natural da doença, possivelmente poderiam coibir futuras infecções. Descobriram que os coronavírus tipicamente se alojavam em morcegos, que não apresentavam sinais da doença. Morcegos, aliás, representam um quarto de todas as espécies de mamíferos, vivem em grandes densidades populacionais, e possuem um sistema imunológico todo próprio, que permite a convivência com diversos tipos de vírus.

Mais recentemente, estudando excrementos de morcegos numa caverna em Yunnan, os cientistas já haviam descoberto um vírus com mais de 96% de semelhança com o "novo" coronavírus de Wuhan, a mais de 1. 000 km dali. E mais, estudando amostras de sangue dos habitantes da região da caverna, se deram conta de que parte da população local já carregava anticorpos contra o novo vírus. Não se sabe há quanto tempo eles haviam sido infectados, mas isso mostrava como o vírus era repetidamente transmitido aos humanos. Os cientistas soaram o alerta.

Mas a solução é complicada. Enquanto populações urbanas continuarem se expandindo ao redor das matas, o contato com animais silvestres tende a continuar. Coibir o tráfico e consumo desses animais já ajudaria bastante, mas ainda assim não eliminaria o problema. Com a mobilidade humana dos dias de hoje, mesmo as quarentenas acabam fazendo mais mal do que bem, causando danos às comunidades atingidas sem conseguir deter o avanço das epidemias. E a esses problemas se soma a inércia de governos locais em reconhecer o problema quando ele acontece, desperdiçando a chance de agir no início enquanto é tempo.

Enquanto isso, resta esperar pela próxima epidemia e tentar adequar nossa resposta. Apoiar programas de saúde pública para detectar e conter rapidamente as epidemias, assim como programas de pesquisa para identificar e tratar rapidamente os novos vírus. Nossa espécie humana chegou a números nunca antes vistos para animais do nosso porte, e o risco de pandemias é um dos preços a pagar. A solução é a eterna vigilância.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre os autores

Daniel Schultz é cientista, professor de microbiologia e membro do núcleo de ciências computacionais em Dartmouth (EUA). Estuda a dinâmica dos processos celulares, com foco na evolução de bactérias resistentes a antibióticos. É formado em engenharia pelo ITA, doutor em química pela Universidade da Califórnia San Diego e pós-doutorado em biologia sistêmica em Harvard. Possui trabalhos de alto impacto publicados em várias áreas, da física teórica à biologia experimental, e busca integrar essas várias áreas do conhecimento para desvendar os detalhes de como funciona a vida ao nível microscópico.

Monica Matsumoto é cientista e professora de Engenharia Biomédica no ITA. Curiosa, ela tem interesse em áreas multidisciplinares e procura conectar pesquisadores em diferentes campos do conhecimento. Monica é formada em engenharia pelo ITA e doutora em ciências pela USP, e trabalhou em diferentes instituições como InCor/HCFMUSP, UPenn e EyeNetra.

Shridhar Jayanthi é Agente de Patentes com registro no escritório de patentes norte-americano (USPTO) e tem doutorado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Michigan (EUA) e diploma de Engenheiro de Computação pelo ITA. Atualmente, ele trabalha com empresas de alta tecnologia para facilitar obtenção de patentes e, nas (poucas) horas vagas, é um estudante de problemas na intersecção entre direito, tecnologia e sociedade. Antes disso, Shridhar teve uma vida acadêmica com passagens pela Rice, MIT, Michigan, Pennsylvania e no InCor/USP, e trabalhou com pesquisa em áreas diversas da matemática, computação e biologia sintética.

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