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Genética tenta explicar de onde veio Luzia, a brasileira mais antiga

Daniel Schultz

11/10/2018 01h00

O fim de Luzia, a mais antiga brasileira, já conhecemos: desenterrada de uma gruta em Belo Horizonte em 1974, foi finalmente cremada junto com o Museu Nacional no mês passado. Antes disso, Luzia (uma corruptela de "Lucy", o famoso fóssil de Australopiteco africano) permaneceu na gruta por 11.500 anos desde a sua morte aos 20 e poucos anos de idade, com seu crânio surpreendentemente bem preservado. Essa nossa antepassada era uma peça chave no quebra-cabeça que monta a história da colonização das Américas, a última fronteira da humanidade. Sua idade e suas feições bem diferentes dos indígenas brasileiros atuais continuam sendo um mistério, mas novos estudos arqueológicos combinados a poderosas ferramentas de análise genética vão nos permitindo a desvendar as aventuras desses primeiros humanos que embarcaram nessa viagem sem volta desde a Ásia até a Patagônia.

Já nos anos 50 foi proposta a idéia de que os antepassados dos povos nativos das Américas cruzaram o estreito de Bering entre a Sibéria e o Alasca e deram origem à chamada Cultura de Clóvis, observada em vários sítios arqueológicos na América do Norte. Hoje sabemos que durante a última idade do gelo não só havia uma passagem entre a América e a Ásia como havia toda uma imensa região habitável, chamada "Beríngia" onde hoje está o estreito de Bering, numa continuação da Sibéria até as beiradas das imensas geleiras que impediam a passagem ao sul das Américas.

A "Beríngia" entre a Sibéria e o Alasca, que foi inundada pelo degelo ao fim da última era do gelo, formando o estreito de Bering.

Novos estudos genéticos resultaram numa imagem bem mais precisa dessa jornada. Nosso genoma acumula mutações numa certa taxa, e essas mutações são compartilhadas por populações que estão em contato. Quando populações se separam, as mutações acumuladas deixam de ser transmitidas entre elas, se tornando próprias de seu grupo. Assim, quanto mais diferenças genéticas são encontradas entre as populações, mais antiga foi a separação. Análises genéticas de restos humanos no Alasca e de populações atuais corroboram a ideia de que uma população se separou da Ásia e habitou a Beríngia por aproximadamente 10 mil anos, se tornando diferente de seus parentes asiáticos, até que por fim conseguiram seguir adiante com o fim da era glacial há aproximadamente 18 mil anos. 80% dos povos nativos da América são descendentes diretos da Cultura de Clóvis que resultou dessas migrações.

Isso explica a ascendência da grande maioria dos nativos americanos, mas a história é mais complicada. Há sítios arqueológicos mais antigos que a Cultura de Clóvis por todo o continente, até mesmo na Patagônia. Esses sítios são marcadamente diferentes, e aparecem logo depois que a travessia ao sul pelas geleiras se tornou minimamente viável. Além disso, a análise genética de certas tribos da Amazônia mostra um parentesco com povos aborígines da Austrália. E Luzia, que é tão antiga quanto a Cultura de Clóvis, mostra feições mais próximas desses aborígenes, bem diferentes dos indígenas brasileiros de hoje. Teria então havido migrações anteriores?

Artefatos típicos dos povos da Cultura de Clóvis.

Os estudos mais recentes se dividem em duas opiniões, baseadas em estudos detalhados da genética de populações atuais tanto na Ásia quanto nas Américas, assim como em material genético retirado de restos mortais de seres humanos antigos. Alguns cientistas sugerem que de fato houve mais de uma corrente de migração através da Beríngia, possivelmente com a coexistência de diversos povos por lá durante a era glacial. Dessa maneira, algum povo que esteve em contato com os aborígenes australianos se antecipou aos antepassados da Cultura de Clóvis na sua viagem ao sul, estabelecendo esses povoamentos mais antigos. Já outros cientistas acreditam que essa semelhança com os aborígenes pode ter vindo mais tarde, por meio de alguma outra população asiática que teria migrado tanto para a Austrália quanto para a América, fornecendo uma contribuição genética semelhante aos dois lugares.

Essas respostas dependem do estudo de populações antigas, mas esses estudos vão ficando cada vez mais complicados quanto mais distantes no tempo. Podemos analisar detalhadamente as variações genéticas em populações atuais, mas ao analisar populações antigas dependemos de um material genético fragmentado retirado de alguns poucos exemplos. Em alguns casos, como o de Luzia, a extração do DNA já não é mais possível, restando a análise das dimensões dos ossos. Em outros casos, dependendo das condições climáticas, já nem é possível recuperar restos mortais, e temos que nos contentar em saber que uma certa cultura viveu por ali, numa certa época e com certos costumes.

Assim como Luzia, outros fósseis anteriores à Cultura de Clóvis mostravam feições mais semelhantes aos povos aborígenes australianos. Porém, recentemente, cientistas conseguiram extrair DNA de algumas dessas amostras, e não conseguiram estabelecer nenhuma conexão com os aborígenes. Por um lado ainda é cedo para afirmar com certeza que os humanos mais antigos da América realmente não eram relacionados aos aborígenes (apesar de se parecerem com eles), e que essa influência, já bem documentada, só veio mais tarde. Por outro lado, é notoriamente difícil relacionar a genética às características físicas, e várias dessas características só surgiram recentemente. Pele clara, por exemplo, evoluiu paralelamente em europeus e asiáticos apenas nos últimos 10 mil anos.

Mas uma coisa é certa: mesmo na América, onde os seres humanos demoraram a chegar, os fósseis mais antigos pintam uma imagem de uma colonização dinâmica e em constante evolução. Uma combinação de vários métodos é necessária para encaixar todas as peças desse quebra cabeça e exemplos bem-conservados de restos mortais antigos são extremamente valiosos. Luzia, que provavelmente é uma antepassada direta de todos os brasileiros com alguma raiz nativa, mostra como a população brasileira já evoluiu com diferentes correntes migratórias, muito antes da chegada dos portugueses. Realmente uma pena que tenha sofrido uma segunda morte nas mãos da nossa negligência com a sua história.

Sobre os autores

Daniel Schultz é cientista, professor de microbiologia e membro do núcleo de ciências computacionais em Dartmouth (EUA). Estuda a dinâmica dos processos celulares, com foco na evolução de bactérias resistentes a antibióticos. É formado em engenharia pelo ITA, doutor em química pela Universidade da Califórnia San Diego e pós-doutorado em biologia sistêmica em Harvard. Possui trabalhos de alto impacto publicados em várias áreas, da física teórica à biologia experimental, e busca integrar essas várias áreas do conhecimento para desvendar os detalhes de como funciona a vida ao nível microscópico.

Monica Matsumoto é cientista e engenheira em equipamentos biomédicos em Boston (EUA). Desenvolve equipamentos para teste de visão e métodos para imageamento médico e processamento de sinais biológicos. Coordena um grupo que reúne pesquisadores e universitários brasileiros em Boston para discutir ciência multidisciplinar e inovação. Integra, através da SciBr Foundation, redes baseadas em conhecimento nos Estados Unidos e Canadá. É formada em engenharia pelo ITA e doutora em ciências pela USP, e busca integrar pesquisa e tecnologias em diferentes campos de conhecimento e conectar pessoas.

Sobre o blog

Novidades da ciência e tecnologia, trazidas por brasileiros espalhados pelo mundo fazendo pesquisa de ponta. Um espaço para discussões sobre os rumos que as novas descobertas e inovações tecnológicas podem trazer para a sociedade.