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Para onde o mundo vai

Para onde o mundo vai

Cientistas explicam estudo polêmico de forma inovadora

Mônica Matsumoto

2002-08-20T18:04:00

02/08/2018 04h00

A ciência não precisa ser um bicho de sete cabeças. Mas frequentemente ela é vista assim, como algo estranho e distante. Em inglês, frequentemente cientistas e universidades são chamados por seus detratores de "torre de marfim" ("ivory tower"). Uma torre extravagante, com pessoas que fazem estudos difíceis e de pouca aplicação em problemas do dia-a-dia. A analogia ainda remete a um funcionamento desconectado com a sociedade, pois esses cientistas se encontram isolados em sua torre.

Um trabalho científico publicado recentemente teve uma abordagem inovadora: veio acompanhado de uma sessão de Perguntas Frequentes, maior que o próprio estudo! Os autores ainda tiveram o cuidado de disponibilizar um email de contato para esclarecimentos e perguntas adicionais.

Os cientistas, claramente, previram as repercussões do estudo inédito publicado na Nature Genetics, que entrava num tema polêmico (como no artigo que relacionava economia com genética). Daniel Benjamin, um dos pesquisadores, foi quem forneceu seu contato para perguntas adicionais. Os autores coletaram informações genéticas de mais de um milhão de pessoas e estudaram as variações nos genes associadas ao sucesso escolar destes indivíduos, medido em anos de estudo formal.

Na análise dos dados, as variáveis sociodemográficas foram controladas e corrigidas, e foi possível observar assim mais de mil genes independentes contendo variações (SNPs ou polimorfismos de um único nucleotídeo) associadas ao desempenho acadêmico. Lendo com cuidado o artigo, apesar de existirem importantes variações genéticas, elas explicariam 11% das consequências acadêmicas. Ainda assim, esses desfechos tornam-se irrelevantes se forem levados em consideração os fatores sociodemográficos. Ou seja, analisando-se esses genes nada se pode concluir, mas os cientistas apontam que essa pode ser uma ferramenta interessante. 

O estudo é muito importante, porém pode ser interpretado de forma equivocada, o que os cientistas obviamente querem evitar. E por esse motivo decidiram antecipar as respostas com a sessão de perguntas esperadas!  Os desdobramentos são significativos. Um exemplo de atuação seria investir mais recursos em alunos mais vulneráveis,mas esse tipo de ação teria inúmeros desdobramentos éticos, e há um temor que possa ser usado como forma de discriminação. A sessão de perguntas trata de questões que podem ser feitas a respeito do estudo, e os cientistas reforçam com isso as conclusões que podem ser tiradas. E isso tem um valor enorme.

Em geral, os artigos científicos focam em descrever os métodos, experimentos e conclusões. A forma rigorosa como as hipóteses geradas e testadas exige uma descrição detalhada, difícil de entender para o público geral. Análises estatísticas também são outro ponto complicado de digerir. Geralmente, o cientista está acostumado a pensar em ensaios rigorosos e preocupado em conter os vieses e interferências do experimento, além de fornecer informações suficientes para que o estudo possa ser reproduzido. A ciência só se afirma quando estudos independentes apontam para as mesmas evidências, em especial quando há descobertas muito importantes. Entretanto, as preocupações dos cientistas tem foco diferente de outros setores da sociedade. Cientistas conduzem seus estudos sem se preocupar muito com a repercussão de seus estudos na grande mídia, e esse é um ponto de desconexão.

Essa iniciativa de prever perguntas é uma tentativa muito interessante de aproximar o cientista do público. O diálogo aproxima; e explicar de forma acessível a qualquer pessoa o estudo é uma ponte que pode trazer muitos benefícios. É informativo para o público geral e também antecipa e evita conclusões equivocadas que podem brotar nos meios de comunicação. Assim, essa iniciativa mostra um papel mais social do cientista, que é comunicar de forma clara para o público o que representa o seu estudo. Esse artigo mesmo tenta mostrar com cuidado que, na verdade, não fornece conclusões definitivas para esse assunto complicadíssimo.

Sobre os autores

Daniel Schultz é cientista, professor de microbiologia e membro do núcleo de ciências computacionais em Dartmouth (EUA). Estuda a dinâmica dos processos celulares, com foco na evolução de bactérias resistentes a antibióticos. É formado em engenharia pelo ITA, doutor em química pela Universidade da Califórnia San Diego e pós-doutorado em biologia sistêmica em Harvard. Possui trabalhos de alto impacto publicados em várias áreas, da física teórica à biologia experimental, e busca integrar essas várias áreas do conhecimento para desvendar os detalhes de como funciona a vida ao nível microscópico.

Monica Matsumoto é cientista e professora de Engenharia Biomédica no ITA. Curiosa, ela tem interesse em áreas multidisciplinares e procura conectar pesquisadores em diferentes campos do conhecimento. Monica é formada em engenharia pelo ITA e doutora em ciências pela USP, e trabalhou em diferentes instituições como InCor/HCFMUSP, UPenn e EyeNetra.

Shridhar Jayanthi é Agente de Patentes com registro no escritório de patentes norte-americano (USPTO) e tem doutorado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Michigan (EUA) e diploma de Engenheiro de Computação pelo ITA. Atualmente, ele trabalha com empresas de alta tecnologia para facilitar obtenção de patentes e, nas (poucas) horas vagas, é um estudante de problemas na intersecção entre direito, tecnologia e sociedade. Antes disso, Shridhar teve uma vida acadêmica com passagens pela Rice, MIT, Michigan, Pennsylvania e no InCor/USP, e trabalhou com pesquisa em áreas diversas da matemática, computação e biologia sintética.

Sobre o blog

Novidades da ciência e tecnologia, trazidas por brasileiros espalhados pelo mundo fazendo pesquisa de ponta. Um espaço para discussões sobre os rumos que as novas descobertas e inovações tecnológicas podem trazer para a sociedade.